Na última sexta-feira entrevistei Karina Rehavia, fundadora da Ninui. Na entrevista, que você confere logo abaixo, falamos sobre o surgimento da Ninui, os aprendizados, o prêmio no Rio Info, os planos para o futuro, a participação no Desafio GV Intel e muito mais.
A Ninui surgiu em Fevereiro de 2009, no Rio de Janeiro, e hoje é uma plataforma integradora de negócios de varejo online especializada em mercados de nicho. Com foco atual nos nichos de produtos Feitos à Mão e Brechós, a Ninui oferece aos vendedores lojas gratuitas e toda a infra estrutura necessária para a venda dos seus produtos.
H20%: Como surgiu a idéia de fazer a Ninui?
Karina: Há muito tempo eu já tinha vontade de empreender, mas nunca tinha tido a oportunidade. Empreender é um processo que demanda um certo investimento e o surgimento dessa nova economia da web, que estamos vivendo atualmente, me deu a oportunidade para empreender com um investimento um pouco mais baixo do que seria normalmente necessário. A idéia da Ninui em si veio de uma série de observações do mercado que eu fui fazendo ao longo do tempo.
Que observações foram essas?
A primeira observação veio do uso da internet no Brasil. Nós somos os melhores usuários de internet em qualidade de acesso, em número de horas on-line e no tipo de relacionamento que temos pela internet, o brasileiro leva para a internet o tipo de relacionamento que tem de forma off-line.
A segunda observação foi o crescimento do comércio eletrônico no Brasil. O comércio eletrônico é o segmento que mais cresce no Brasil e no mundo. Somente no 2º semestre de 2008, com toda a crise financeira, o crescimento foi de 30%. É um crescimento fantástico até para época de crise e a tendência é de crescer ainda mais. Hoje no Brasil nós temos 15 milhões de compradores on-line e a estimativa é que esse número chegue a 90 milhões em 2013, movimentando aproximadamente R$ 50 bilhões por ano.
Olhando para esse segmento percebi que o mercado estava carente de representação em nichos específicos relacionados ao pequeno varejo, ou seja, existem grandes portais de comércio eletrônico como Americanas.com, Submarino, Mercado Livre, etc., mas não havia algo focado para o pequeno empreendedor, aquele que vive do que costumamos chamar de mercado informal e que representa uma parcela gigantesca da população. Hoje são 60 milhões de brasileiros, que geram 50% do trabalho e renda no Brasil e este é um dado que me surpreendeu demais.
Juntando todas essas peças é que surgiu a Ninui em fevereiro de 2009. A Ninui hoje é uma plataforma integradora de varejo on-line, ou seja, é mais do que um portal e oferece gratuitamente, para qualquer pessoa que tenha algo para vender, dentro dos nichos de mercado que trabalhamos, um conjunto de ferramentas tecnologicas. A pessoa que quer vender não precisa estar necessariamente dentro do site da Ninui, ela pode usar nossa plataforma em redes sociais, blogs, etc.
A Ninui é uma plataforma 100% gratuita, ou seja, não cobramos mensalidades, taxa de adesão, taxa para cadastro de produtos ou comissões sobre as vendas. Isso nos dá uma infinidade de possibilidades, pois não ficamos presos à um determinado aspecto do negócio em si.
Nossa missão é gerar trabalho e renda para as pessoas, ajudar a fomentar o empreendedorismo e a inclusão digital.
Você se lembra do momento em que teve a idéia da Ninui?
Foi basicamente um processo evolutivo, mas eu posso citar que o “estalo” veio com a escolha dos nichos de mercado. Isso veio de uma característica minha de ser consumista, de adorar coisas feitas à mão e de ser uma frequentadora assídua de brechós, desde muito pequena. Comecei a perceber que não havia um local que reunisse esses dois nichos, que eles não eram representados na internet e que havia ali uma oportunidade.
Nesse processo eu gostaria de citar o Roberto Andrade, que é Diretor Executivo da Ninui e que esteve desde o começo, desde a concepção da idéia e da criação da Ninui.
O que você fazia antes de montar a Ninui? Você trabalhava com TI ou desenvolvimento web?
Não. Eu não sou desenvolvedora. Fiz toda a concepção da Ninui, toda a arquitetura da informação, mas não desenvolvo os códigos. Sou formada em Comunicação com expecialização em Cinema por uma faculdade dos EUA, que se chama Rowan University. Morei 8 anos fora do Brasil e retornei em 2004. Trabalhei durante um tempo no mercado publicitário basicamente em projetos de comunicação e marketing voltados para a web.
Hoje a Ninui está com quantos usuários?
Hoje nós estamos com 580 lojas abertas e ativas. É interessante citar que não fizemos nenhuma ação de divulgação, todo o nosso crescimento vem da divulgação dos próprios usuários, o que demonstra o poder da rede e o quanto o projeto da Ninui é relevante.
A qualidade da Ninui também faz com que as pessoas divulguem…
Sim, a qualidade da Ninui e a relevância do projeto. Isso demonstra também a força das pessoas, a vontade de empreender.
Você possui algum mentor? Alguém que te orientou?
Tiveram várias pessoas que eu fui consultando ao longo do caminho. Nós contamos com o apoio da ALTEX – Associação de Empresas de Alta Tecnologia para Exportação de Software, que fica sediada aqui no Rio de Janeiro.

Esse é o principal motivo de vocês estarem no Rio?
Não. Eu vim para o Rio de Janeiro muito antes da Ninui, moro aqui desde 2006. O motivo da minha vinda foi essa cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro nos acolheu muito bem e tem se mostrado um lugar super bacana para empreender. Recentemente nós fomos premiados com o prêmio Rio Info, ganhamos na categoria Redes Sociais, também através de uma incubadora aqui do Rio de Janeiro. Não somos incubados, mas através dessa incubadora nos candidatamos ao Prime da FINEP e conseguimos mais essa conquista também. Estamos também em São Paulo, é um pé aqui e outro aí.
Tem alguma equipe da Ninui que fica aqui em São Paulo?
Não. A gestão da Ninui é toda remota, nós não temos escritório físico, temos colaboradores literalmente espalhados pelo mundo.
Como assim?
O nosso CRM, que é a pessoa que cuida da parte de atendimento do site, trabalha conosco full time e fica aqui no Rio de Janeiro. Já o nosso webdesigner é de Bogotá e nossa editora de conteúdos fica em Londres.
Esse é o modelo de empresas do futuro, certo?
Sim, o modelo 3.0, sem base fixa. Eu costumo dizer que o meu laptop é o meu escritório.
Vocês tiveram algum apoio de investidores?
Estamos procurando investimento atualmente. Estamos inclusive na fase semi-final do Desafio GV Intel o que para nós é uma ótima vitrine nessa busca de atrair algum investimento. Inicialmente nós pegamos um empréstimo da Caixa Econômica Federal para dar o “start” da Ninui e até agora tudo tem sido investimento próprio. Em 2010 nós contaremos com o apoio do Prime da FINEP.
Você falou que a Ninui hoje é 100% gratuita. Vocês possuem um modelo de negócio?
Sim, o nosso modelo de negócios é baseado em ações institucionais com marcas que queiram se relacionar com a nossa base de usuários, ou que tenham interesse em desenvolver projetos com a participação da Ninui. Temos também o modelo de negócio de compartilhamento da nossa rede com os nossos patrocinadores, ou seja, eles poderão se relacionar com a rede da Ninui, que é uma rede altamente qualificada, formada por pessoas que tem esse forte viés do empreendedorismo.
Publicidade é uma outra fonte de receitas e aí são diversas as possibilidades. Nosso blog tem espaço publicitário e enviamos uma newsletter quinzenal que também pode ser patrocinada. Nós não temos nenhuma fonte de receita que venha do usuário.
Os nichos que a Ninui atua hoje são o de Brechó e Feito a Mão. Existem outros?
Nós lançamos a Ninui com dois nichos e os dois próximos nichos serão o nicho de Antiquários e o nicho de Hobbies, que nós identificamos como nichos específicos, separados do Brechó.
O nicho de Hobbies conteria que tipo de produtos? Minaturas, quebra-cabeças…
Exatamente. Nós temos categorias de miniaturas, montanhismo, pescaria, aeromodelismo, entre outros. Já temos mais de 260 nichos de mercado identificados, que podemos vir a explorar no nosso plano de expansão. Iremos trabalhando de dois em dois nichos, para que possamos ter uma relevância dentro dos mesmos, o que exige um profundo conhecimento das comunidades de cada um.
Você teve algum momento de dúvida sobre a viabilidade do negócio? Algum momento em que pensou em desistir?
Insegurança às vezes aparece, mas nunca questionei a viabilidade do negócio. Eu sempre acreditei na Ninui. Se você não acredita no seu negócio é melhor cair fora, porque empreender é um processo difícil. Nós estamos encontrando muito mais apoio do que imaginávamos, tivemos o Prime, a associação com a ALTEX e o Riosoft, mas ainda é um caminho difícil. Esse conceito de startup no Brasil é muito novo, nós não temos uma estrutura de capital de investidores como existe, por exemplo, nos EUA.
Como você se sentiu quando o site começou a ter a audiência?
Eu achei fantástico. Tem coisas que acontecem diariamente na Ninui que são emocionantes, e-mails que nós recebemos através do Fale Conosco, de pessoas dizendo o quanto o site as está ajudando. Essa sensação de que estamos dando a oportunidade de gerar trabalho, de gerar renda, é muito bacana. Cada dia é diferente na Ninui, todos os dias acontece alguma coisa legal, algo que nos empolga. Está tudo muito legal.
O que mais lhe surpreendeu?
Uma coisa que me surpreendeu bastante é como o nosso modelo de negócios evoluiu. Nós começamos com uma idéia de como seria o nosso modelo de negócio e hoje nós temos uma visão completamente diferente. Nós começamos como um portal e hoje nós somos uma plataforma.
Outra coisa que me surpreendeu bastante é a capacidade da gestão remota, aquilo que nós estávamos conversando antes, da empresa 3.0. Eu sabia que era possível, mas não imaginei que fosse ser tão eficiente ter um colaborador em cada continente.
Como está sendo a participação da Ninui no Desafio GV Intel?
Fantástica! Quando falei do Desafio acabei esquecendo de citar as oportunidades que eu não imaginava que teria ou que estariam disponíveis e o Desafio com certeza é uma delas. Eu aprendi muito nesse processo do Desafio que, assim como o Prime, são processos que te forçam a pensar o seu negócio do começo ao fim, com planejamento de 5 anos e tal. Você acaba fazendo um raio-x do negócio como um todo.
Nós já entramos no Desafio e no Prime com o negócio em andamento, porque a Ninui já tinha sido lançada como empresa, mas de qualquer forma muitas coisas dessa transformação da Ninui, dessa reflexão que a Ninui passou e que passa constantemente, vieram desse processo, que nos fizeram parar e realmente pensar o negócio, o porquê de nós estarmos fazendo isso, quais são os caminhos mais interessantes, plano de internacionalização, que também mudou um pouco em função de tudo isso, nosso plano de expansão, etc.. Também é fantástico o fato de termos o acesso à informação tão qualificada e a qualidade dos colaboradores que participam do Desafio. Todas as associações de investidores anjo brasileiras estavam lá, ou seja, pessoas muito qualificadas e eu aprendi muito.
Quais são os planos para o futuro da Ninui?
Acredito que até o final do ano estaremos com esses dois novos nichos no ar e temos também uma expansão internacional pela frente. Começaremos a expansão da Ninui para os países de língua portuguesa, começando em Moçambique e depois iremos para Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Principe, Cabo Verde, Portugal e Macau. Estamos super felizes com isso, com contatos muito legais. Estamos formando uma base operacional em Moçambique nesse nosso estilo. Depois dos países de língua portuguesa iremos expandir para os países da América Latina. O que é muito legal também para nós, nessa expansão para os países de língua portuguesa, é promover o intercâmbio cultural entre os países. Vemos uma oportunidade de fomentar o pequeno empreendedorismo nesses países, de desenvolver um trabalho como o que estamos desenvolvendo hoje no Brasil e também promover esse intercâmbio. Eu diria que essa é a nossa missão nesse começo de expansão internacional.
Que conselhos que você daria para uma pessoa que queira montar um negócio com foco em internet?
Acho que o primeiro seria a Perseverança. E isso não é só para negócios de internet, mas para qualquer empreendimento que uma pessoa queira fazer. Vão existir vários obstáculos pelo caminho, provavelmente. Eu acho que a pessoa deve seguir a sua própria lógica, para passar esses obstáculos e se manter firme com a idéia.
Outro conselho é para sempre estar preparado e flexível para a mudança, ainda mais na internet que é uma plataforma muito dinâmica, onde as coisas acontecem muito rápido. Se você não está flexível, não está aberto a mudar, a ajustar, a aperfeiçoar e se adaptar as coisas serão bem mais complicadas. É isso que nós estamos tendo como guia na Ninui, ou seja, esse aprendizado constante pelo qual estamos passando para tornar a Ninui um projeto cada vez melhor e relevante. Outra questão importante é que nós ouvimos muito os nossos usuários, é quase que uma gestão colaborativa, ou seja, estamos sempre perguntando, sempre ouvindo, sempre levamos em consideração o que eles dizem e isso vai guiando a nossa estratégia e o nosso plano de trabalho.
Você acha que teria sido mais fácil montar a empresa em outro país, que não o Brasil? Que aqui as coisas são mais difíceis do que lá fora?
Não. Eu não tenho essa avaliação. Acho que empreender é difícil em qualquer lugar. Eu tenho amigos nos EUA que estão montando a sua primeira startup e também estão com dificuldades. É claro que nos EUA existe mais a cultura de startup e do empreendedorismo, o acesso aos recursos e aos investimentos é mais fácil, mas acho que o Brasil está em um caminho maravilhoso em direção a isso e os programas como a FINEP e iniciativas como o Desafio estão aí para provar isso. O brasileiro é altamente empreendedor, de uma forma maravilhosa, criativa, mesmo com poucos recursos. O brasileiro é extremamente auto-didata, nós aprendemos tudo sozinhos, nós aprendemos a usar o computador sozinhos, ninguém foi nos ensinar no colégio, nós aprendemos a usar a internet sozinhos, as redes sociais, enfim, eu vejo um futuro maravilhoso para o empreendedorismo no Brasil. Sou muito otimista e tenho muita fé que o Brasil será um país cada vez melhor para se empreender.